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Bebê é
operado ainda ligado à mãe por cordão umbilical em Curitiba
Menina tinha má formação
na traqueia que impediria oxigênio aos pulmões caso cordão
fosse cortado
Do Estadão.Com
Uma cirurgia pouco comum, em
que a intervenção acontece enquanto o bebê ainda está unido
à mãe pelo cordão umbilical, foi realizada no último sábado,
no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná,
em Curitiba, e salvou a vida de Helena Pontara.
A menina tinha uma má formação
na traqueia que impediria a chegada do oxigênio nos pulmões
caso o cordão fosse cortado. Ela poderia morrer de asfixia
ou sofrer danos graves cerebrais se a cirurgia fosse
realizada sem que houvesse circulação gasosa entre ela e a
mãe.
O problema foi descoberto
quando Helena tinha 16 semanas de gestação. "O diagnóstico
precoce pela ecografia e a nossa estrutura foram
importantes", afirmou o chefe da disciplina de Cirurgia
Pediátrica, Miguel Ângelo Agulham.
Depois que a mãe, Paula Regina
Pontara, de 33 anos, moradora em Telêmaco Borba, na região
central do Paraná, procurou o HC, foram seis semanas de
preparação para a cirurgia. A intenção era usar o método
conhecido como exit (terapia intraparto fora do útero), que
consiste em realizar traqueostomia (abertura na traqueia)
enquanto a criança está com o corpo parcialmente fora da
mãe.
A cesariana, prevista para ser
realizada na 38ª semana, precisou ser antecipada em quatro
semanas, porque a mãe entrou em trabalho de parto, o que já
era um complicador a mais. Além disso, a criança estava em
posição pélvica (sentada). Apesar das tentativas, não foi
possível fazê-la mudar de posição para que a cabeça saísse
primeiro. Por isso, optou-se por uma variação, aplicando a
técnica oops (operação sob suporte placentário).
A mãe recebeu anestesia geral
e medicamento para que o útero parasse de contrair e não
expulsasse a placenta. "Desse modo, a circulação foi
mantida", acentuou o tocoginecologista Renato Sbalgueiro.
Enquanto isso, o bebê, sobre as pernas da mãe, era submetido
à traqueostomia.
Somente quando essa cirurgia
foi encerrada, o cordão foi rompido e o bebê passou a
respirar espontaneamente. Agora, ele permanece na UTI
pediátrica, em situação estável, ainda ligado a aparelhos,
que têm sido reduzidos gradativamente. Não há previsão de
alta.
De acordo com o cirurgião
pediátrico Marcelo Stegari, caso a criança nascesse sem os
cuidados recebidos morreria por asfixia. Ele acentuou que é
possível até se fazer uma traqueostomia após o corte do
cordão umbilical, mas como a criança ficaria alguns minutos
sem respirar, poderia ter sequelas graves.
Depois de um ano de vida,
Helena precisará passar por nova cirurgia corretiva das vias
aéreas para tirar a traqueostomia. "Não foi fácil, mas uma
grande lição de vida", destacou a mãe, que estava ao lado do
pai da criança, Thiago Roberto Lopes. Segundo ela, a família
foi aconselhada a fazer a cirurgia no exterior, mas, apesar
de ter condições financeiras, preferiu confiar na equipe do
HC.
"Nunca tive uma dúvida, tinha
certeza de que daria certo", afirmou. O procedimento todo
demorou cerca de duas horas e contou com a participação de
25 profissionais do hospital. Segundo a assessoria do HC, no
mundo foram realizadas entre 400 e 500 cirurgias desse tipo.
"Na nossa literatura brasileira não encontrei", disse
Agulham. |