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Entrevista
do presidente Lula ao Diario de Pernambuco
Do Pernambuco.Com
Em entrevista exclusiva ao
Diario, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz um
pequeno balanço de seu mandato e revela que, à partir de 1º
de janeiro de 2011, pretende passar boa parte de seu tempo
empunhando bandeiras básicas para o país, entre elas, a
reforma política.
"Pretendo continuar a
contribuir na política brasileira, não me metendo em
questões do dia a dia, mas levantando bandeiras fundamentais
para o Brasil, a começar pela reforma política". Lula
rebateu as críticas de que teria privilegiado o Nordeste no
que diz respeito a investimentos federais em seus quase oito
anos de mandato. Para ele, o volume de obras e
empreendimentos direcionados à região pelo governo federal é
o pagamento de uma antiga dívida que beneficia outras
regiões do país que enfrentam problemas advindos do
adensamento humano e a concentração econômica. "Nós
simplesmente estamos resgatando uma dívida antiga",
referindo-se à falta de iniciativas semelhantes de seus
predecessores. O presidente também afirmou que a descoberta
de petróleo na camada do pré-sal não vai desestimular os
investimentos na produção de biodiesel anunciada como uma
espécie de resgate social e econômico para estados
nordestinos. "O biodiesel jamais ficaria em segundo plano",
prometeu, com a condicionante de que seu sucessor encare o
assunto sob o mesmo prisma de importância.
Por último, Lula reforça o entendimento do governo sobre a
inclusão digital, aliás, motivo de sua visita a Caetés. "A
inclusão digital não é um luxo ou um supérfluo. É
fundamental para a igualdade de oportunidades e a construção
de um Brasil mais justo".
Veja seguir os principais pontos da entrevista de Lula ao
Diario.
Transposição, Transnordestina e Refinaria Abreu e
Lima. Qual desses projetos do PAC que não vão ficar prontos
até o fim de 2010, ao contrário do previsto, o senhor mais
lamenta não poder inaugurar e por quê?
Não é verdade que as três obras estavam previstas
para 2010. A Refinaria Abreu e Lima estava inicialmente
planejada para 2011. E quanto à integração das bacias do São
Francisco, o Eixo Leste, que estava previsto para 2010, tem
49% das obras realizadas e será entregue no prazo. No Eixo
Norte, já estão realizadas 37% das obras e a conclusão está
prevista para 2012. São três obras extraordinárias, que vão
transformar completamente a realidade econômica e social do
Nordeste. Eu gostaria muito de inaugurar as três, não por
vaidade pessoal, e sim para beneficiar o quanto antes
possível a população da região, que já estava cansada de
esperar por estes empreendimentos. No entanto, o mais
importante é que as obras tiveram início e estão avançando.
Pra se ter uma idéia, a primeira proposta de fazer a
transposição do São Francisco é de 1847. De lá para cá, ou
seja, durante mais de 150 anos, esporadicamente os governos
voltavam ao assunto elaborando estudos e projetos, mas não
saía disso, ficava tudo no papel. Só em nosso governo as
obras tiveram início de fato e isso é o mais importante.
Como diz um provérbio chinês, "uma caminhada de mil léguas
começa com o primeiro passo". Além da integração das bacias,
estamos promovendo a revitalização ambiental dos rios e
implementando o Água para Todos, para o suprimento de 593
localidades. Quanto à Ferrovia Transnordestina, a proposta é
também do tempo de D. Pedro II e só agora ganha efetividade.
São 1.728 km de construção e 550 km de remodelação. A
Ferrovia vai ligar o porto de Suape, em Pernambuco, à cidade
de Eliseu Martins, no Piauí, e ao porto de Pecém, no Ceará.
Estão em obra no momento trechos que somam 1.362 km e a
conclusão está prevista para 2012. A Refinaria Abreu e Lima,
planejada para processar 230 mil barris de petróleo por dia,
está com obras em andamento e com 20%já realizadas. Pelo
planejamento, a conclusão será em 2013. Se nós fôssemos
pensar em realizar apenas obras que terminassem em nosso
período de governo, não daríamos início a nenhuma grande
obra, a nenhuma obra estruturante. Boa parte será inaugurada
no próximo governo, mas o mais importante é que toda a
população nordestina será beneficiada e terá todas as
condições para superar o atraso em várias áreas e ingressar
num período duradouro de prosperidade. Aliás, a população já
está sendo beneficiada, com a geração de milhares de
empregos e com a forte ativação da economia. O Nordeste vive
hoje talvez o melhor momento da sua história. E vai melhorar
ainda mais.
O senhor acredita que o próximo presidente,
independentemente de quem seja, vai continuar sua política
de atenção para com o Nordeste, descentralizando
investimentos? Ou essa é uma característica muito própria do
seu governo, já que o senhor é nordestino?
Eu sinto muito orgulho de ser nordestino e
pernambucano e tenho pela região um sentimento de carinho
que guardo no lado esquerdo do peito. É uma coisa minha,
pessoal. Mas, como presidente, preciso olhar para o Brasil
como um todo. Se tenho investido fortemente no Nordeste, não
é por ter nascido aqui, e sim porque o Nordeste é uma das
regiões que sempre estiveram esquecidas pelos governantes.
Essa é a razão dos investimentos pesados que estamos
fazendo. Somando-se os empreendimentos exclusivos em cada
estado do Nordeste, constantes do PAC, são R$ 101,1 bilhões
de 2007 a 2010. Fora os empreendimentos de caráter regional,
a exemplo da Transnordestina e do Projeto de Integração de
Bacias, mais conhecido como Transposição do São Francisco.
Com um volume inédito de obras e empreendimentos
direcionados ao Nordeste fica a impressão de que estamos
privilegiando a região. Não, nós simplesmente estamos
resgatando uma dívida antiga, conferindo ao Nordeste a mesma
importância que antes era conferida apenas às regiões do
centro-sul do país. Precisamos promover um crescimento
harmônico e sustentável do país. Chega decrescer de maneira
torta. Governos anteriores só investiam em infraestrutura
onde havia uma forte atividade econômica e os empresários só
investiam onde havia boa infraestrutura, criando um círculo
vicioso, concentrando empreendimentos, pessoas e problemas
de todos os tipos em poucas regiões metropolitanas. Os
investimentos que fazemos no Nordeste e outras regiões antes
esquecidas, será benéfica inclusive para as regiões que
sofreram inchamento, como São Paulo. Haverá desconcentração,
maior equilíbrio e desenvolvimento harmônico em todo o país.
Com a descoberta de petróleo na camada pré-sal, a
produção de biodiesel no Nordeste, tão importante para o
desenvolvimento da população de baixa renda e anunciado com
pompa ainda no seu primeiro mandato, ficou em segundo plano?
No setor de energia, nós consideramos que o mais
importante é contar com uma matriz diversificada, é ter a
possibilidade de, havendo a necessidade, poder substituir
rapidamente uma fonte de energia por outra. E nós já somos,
seguramente, o país de matriz energética mais diversificada
do planeta. Já atingimos a autossuficiência e ainda estamos
nos capacitando a integrar o grupo dos grandes exportadores.
E o mais importante é que dentro da nossa matriz energética,
46% são provenientes de fontes renováveis - biodiesel,
etanol, carvão vegetal, eólica (que aproveita a força dos
ventos), hidreletricidade, etc. No resto do mundo, essa
porcentagem é de apenas cerca de 14%. Por todas essas
razões, e também por seu conteúdo social, o biodiesel jamais
ficaria em segundo plano. Tanto que nós estamos aumentando
ano a ano a porcentagem obrigatória de biodiesel no diesel
mineral. De 2005 a 2007, era facultativa a mistura de 2% de
biodiesel. A partir de janeiro de 2008, essa porcentagem de
mistura passou a ser obrigatória. Ainda em 2008, aumentamos
a adição para 3% e, em 2009, para 4%. A mistura obrigatória
de 5% estava prevista somente para 2013, mas nós antecipamos
para este ano, o que representa, apenas para a mistura, uma
demanda anual de 2,3 bilhões de litros. A capacidade
instalada das usinas está em 4 bilhões de litros anuais de
biodiesel. E o que mais me deixa feliz é constatar que 93%
são produzidos por empresas que utilizam o Selo Combustível
Social. Este Selo dá direito a benefícios tributários e é
fornecido às usinas que adquirem uma porcentagem mínima de
matéria-prima dos agricultores familiares. São milhares de
agricultores que hoje têm como principal fonte de renda o
fornecimento de matéria-prima às usinas. Em termos de
volume, o Brasil se orgulha hoje de ser o terceiro maior
mercado mundial de biodiesel, mesmo tendo entrado há muito
pouco tempo no setor.
Qual o projeto político do senhor para quando deixar
a Presidência? O senhor cogita a possibilidade de se
consolidar como um estadista global?
Já ouvi algumas sugestões nesse sentido, a
imprensa, inclusive internacional, tem feito especulações a
respeito, mas eu, sinceramente, não trabalho com essa
perspectiva. Fico lisonjeado com a lembrança do meu nome,
mas estou convencido de que o cargo de secretário-geral da
ONU deve ser ocupado por funcionários internacionais, por
membros da burocracia que estejam familiarizados com
organizações multilaterais. Não nego que pretendo ter
atuação internacional. Penso muito em contribuir para
amenizar a situação de precariedade e de fome em que vivem
populações de vários países da África e da América Latina.
Como presidente do Brasil, acho que acumulei uma boa
experiência, que poderá ser transmitida para desenvolver
projetos em outros países. Temos no Brasil instituições de
excelência como a Embrapa, com a qual pretendo trabalhar. As
técnicas agrícolas desenvolvidas pela empresa, o
aprimoramento de variedades adaptáveis aos mais diferentes
tipos de solo e de clima, poderão ser levadas a esses países
e dar uma contribuição decisiva para diminuir ou eliminar a
fome e o sofrimento de milhões de seres humanos. Além disso,
pretendo continuar a contribuir na política brasileira, não
me metendo em questões do dia a dia, mas levantando
bandeiras fundamentais parao Brasil, a começar pela reforma
política.
O senhor acabou de lançar o programa Um Computador
por Aluno, em Caetés, mas como o senhor avalia a política de
inclusão digital no seu governo e quais foram as
dificuldades encontradas? Na sua opinião, o que o próximo
presidente terá que fazer para avançar nesta área?
No início do meu primeiro mandato, nós fizemos um
levantamento e descobrimos que estávamos bastante atrasados
em relação a outros países quanto ao uso do computador e da
internet. Começamos a dialogar com diversos especialistas e
com representantes da área, surgindo daí várias iniciativas
como, por exemplo, o programa Computador para Todos, com
linhas de financiamento que facilitam o acesso a
computadores domésticos. Pouca gente acreditou na sua
eficácia, mas passado pouco tempo, os resultados começaram a
aparecer. Em 2004, foram 4 milhões de computadores montados
no Brasil e agora, em 2010, estamos atingindo a marca de 12
milhões. Além da inclusão, estamos fomentando a indústria
montadora de computadores. Segundo dados do Comitê Gestor da
Internet no Brasil, 30% dos lares brasileiros já contam com
esses equipamentos. Estamos investindo também num programa
inovador que é o Um Computador por Aluno (UCA), projeto
pedagógico de uso dessa tecnologia em sala de aula. Até o
final deste ano vamos completar a entrega de 150 mil laptops
para 300 escolas, na segunda fase do projeto piloto. Já
estamos apoiando 5 mil Telecentros e até o final deste ano
estaremos apoiando outros 5 mil. São núcleos de inclusão
digital localizados sobretudo em locais remotos, onde o
acesso à internet é mais difícil. Nós fornecemos
equipamentos de informática, conexão à internet e bolsas
para jovens monitores. As dificuldades são muitas, mas
estamos conseguindo superar todas elas. Um dos principais
problemas é a falta de Banda Larga em boa parte das regiões.
Para resolver o problema, começamos a trabalhar desde o ano
passado na implementação do Plano Nacional de Banda Larga.
Queremos que a Telebrás, que nós reativamos, e as operadoras
de telecomunicações participem dessa proposta, que é levar
banda larga para todos e ajudar a construir o país do
futuro. Quanto ao próximo governo, espero que dê
continuidade aos programas já iniciados. Não se trata de
completar a tarefa, mas de avançar, sabendo que nesta área
estarão surgindo sempre novos e estimulantes desafios. A
inclusão digital não é um luxo ou um supérfluo. É
fundamental para a igualdade de oportunidades e a construção
de um Brasil mais justo.
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